A produção de algodão rendeu a São Luís o título de Atenas Brasileira

Fábrica Rio Anil atualmente. O prédio com mais de 20 portas, é azul, com colunas em vermelho. Na frente possui uma palmeira de babaçu e quatro coqueiro e uma chaminé inativa.
Antiga Fábrica Rio Anil, atualmente funciona no prédio o Centro Integrado do Rio Anil (CINTRA) – Foto: Felipe Matos

O Maranhão foi o primeiro grande produtor e exportador de algodão do Brasil. O auge da produção algodoeira ocorreu entre os anos 1780 a 1820. O algodão maranhense atendia a demanda das indústrias dos países europeus, principalmente da Inglaterra. 

O professor de História Elvis John Oliveira, graduado pelo UFMA, comentou que antes mesmo da chegada dos europeus, já existia algodão nativo no Maranhão. Ainda segundo ele, esse produto passa ter uma grande participação na economia, como a chegada de Marquês de Pombal. “O algodão vai ser impulsionado na segunda metade do século XVIII, por Marquês de Pombal, no governo Dom José I. Pombal tinha uma visão empreendedora, mas para o incentivo da colônia e a colônia gera riquezas para a Metrópole”, explicou.

Nas primeiras décadas do século XIX, a participação do algodão na economia maranhense variava entre 73% a 82%. A prosperidade econômica acabou por contribuir para o crescimento populacional. Em 1822, São Luís era a quarta cidade mais populosa do Brasil, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro, Salvador e Recife. 

Segundo o professor João Paulo Furtado, a prosperidade econômica permitiu a formação de grandes intelectuais, “foi um momento em que os grandes escritores tiveram seus mecenas. Foram enviados para estudar fora, muitos se formaram em Direito, estudaram Literatura, Filosofia, voltaram para cá como grandes intelectuais e escreveram grandes obras. Mas foi um momento muito único, não foi uma tradição ludovicense, nem maranhense, de formar grandes intelectuais e dá continuidade a isso”, comentou.

A economia algodoeira melhorou muito a condição de vida dos ludovicenses, fazendo surgir um movimento intelectual ligado ao Arcadismo e, principalmente, ao Romantismo. A prosperidade da produção de algodão, permitiu a aristocracia maranhense o envio de seus filhos para estudar em Recife, Rio de Janeiro e até mesmo em países europeus, como França, Portugal e Inglaterra. Isso acabou por introduzir novos costumes, modos e aliteratura na capital maranhense.

São Luís se tornou no século XIX, o celeiro de poetas, intelectuais, jornalistas e matemáticos. Viveram para o Maranhão nessa época Gonçalves Dias, Odorico Mendes, Gomes de Souza, o Souzinha, Sotero dos Reis, Padre Antônio da Costa Duarte, Aluísio Azevedo, Artur Azevedo, Adelino Fontoura, João Lisboa, Joaquim Serra e Sousândrade.  “Toda essa gama de poetas e escritores foi possível devido a bonança do algodão no século 18 e no século 19, século gradual de crise”, afirmou Elvis John Oliveira.

O otimismo ludovicense era tão alto que os habitantes de São Luís resolveram autodenominar a cidade de “Atenas Brasileira”. A partir de 1845, inicia-se uma crise no comércio do algodão, porém o produto continuou sendo o mais importante na exportação maranhense. 

“Nas duas primeiras décadas do século 19, o algodão começa a dar sinais de fragilidade, porém ele era tão forte, que mesmo em fragilidade, continuou a gerar riquezas. O açúcar nunca conseguiu ultrapassar o algodão, a não ser no final do século 19, por volta de 1870”, pontuou o professor Elvis John Oliveira.

O Maranhão não competia nos preços do algodão no mercado intenacional. Isso era consequência dos altos custos para produzir, uma vez que o solo maranhense começava a sofrer uma baixa na fertilidade, forçando a exploração de novas áreas de matas, ficando cada vez mais longe do Porto de São luís, aumentando assim, despesas com transporte.

Havia ainda gastos com a vigilância e compra de escravos. Além disso, os maranhenses utilizavam modos de produção arcaicos, o que fez com o Maranhão perder o domínio no comércio de algodão para os Estados Unidos. Para complicar ainda mais a situação dos produtores maranhenses, em 1850, passa a vigorar a Lei Eusébio de Queirós que proibiu o tráfico atlântico de escravos. A partir de então, ficou mais difícil conseguir mão de obra escrava.

Período de euforia

Em 1861, se inicia a Guerra de Secessão (1861-1865), onde os Estados Unidos visando alcançar a independência política, entra em conflito com a Inglaterra. Neste ano, o preço do algodão dispara, chegando a ficar 8 vezes mais caro. O preço da libra de algodão salta, chegando ao pico de US$ 1,9.

Em 1865, acaba a guerra, o Estados Unidos volta a exportar como mais intensidade e o comércio do algodão volta à normalidade. A partir de então, a cotonicultura maranhense começa a entrar em decadência. O colapso estava a caminho.

A São Luís agrícola se torna industrial

A foto mostra parte da Fábrica Rio Anil em 1959. Na frente do prédio a um carro de boi e funcionários próximo a entrada da fábrica. Ao lado da direito do estabelecimento fabril a uma chaminé.
Fábrica Rio anil em 1950 – Foto: Gaudêncio Cunha

O contexto da época demostrava que a escravidão estava próxima do fim, porém os produtores maranhenses continuaram a utilizar o trabalho escravo, isso devido a falta de uma opção economicamente viável. Em 1888, a Lei Áurea determinou o fim da escravidão, no ano seguinte ocorre a proclamação da República. Ambos eventos, vieram piorar a situação econômica e o agravamento da crise na produção de algodão. A abolição da escravatura fez com que muitas fazendas de açúcar fechassem.

Segundo o professor João Paulo Furtado, o fim da escravidão trouxe graves consequências a cotonicultura maranhense, “foi um período de grande bonança econômica, mas foi também uma bolha. Algo que não se sustentou, isso porque não tinha um esquema de produção no desenvolvimento de tecnologia, não tinha um esquema de remuneração para que o dinheiro chegasse aos escravos e voltasse depois para o comércio, tivesse uma retroalimentação dessa economia. Quando a escravidão acaba, se perde essa mão de obra, a economia maranhense desaba, cai vertiginosamente, e não consegue se recuperar”, explicou. 

Financiada principalmente com o capital da venda de fazendas desvalorizadas, a elite começa a transformar São Luís. A economia que antes era escravocrata e agrícola, começa a se tornar industrial de trabalho livre e assalariado. Entre 1872 e 1900, instalaram-se 24 fábricas em São Luís. A maioria eram têxteis, mas haviam também fábricas de fósforos, cerâmicas, chumbo, sabão, prego, calçados e beneficiamento de arroz.

Os operários

As áreas no entorno das fábricas foram sendo ocupados pelas construções rústicas dos operários. O salário destes trabalhadores não era suficiente, portanto praticavam atividades complementares. Faziam roças na região do Bacanga, colhiam frutas na Vila de Vinhais, faziam carvão e pescavam nos rio Anil e Bacanga. O trabalho entorno das fábricas eram o resultado de uma população marginalizada e descendente de escravos.

Fábricas

Fabrica Santa Amélia. O prédio possui três andares e é revestido com azulejos em azul e branco.
Antiga Fábrica Santa Amélia, atualmente o prédio faz parte da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) – Foto: Felipe Matos

O Maranhão entre os anos 1855 a 1895 chegou a dezesseis estabelecimentos fabris, ultrapassando Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo. Em 1935, a atividade fabril contava com quarenta e quatro fábricas. São Luís possuía setenta mil habitantes. Os principais produtos econômicos eram o algodão e arroz.

As fábricas têxteis movimentavam o comércio da ilha. As principais foram:

Martins & Irmão

Localizada no Largo de Santiago, a fábrica foi inicialmente de beneficiamento de arroz e produção de sabão, porém no início do século XX, o estabelecimento passa a produzir também algodão hidrofílico, que mais tarde seria reconhecido como o melhor do mundo.

Companhia de Fiação e Tecidos

Conhecida como Fábrica Camboa, devido está localizada no bairro de mesmo nome, foi a primeira fábrica têxtil de São Luís, foi criada entre os anos 1888 e1890; possuía 300 teares e uma produção anual de 1.800.000 metros de tecido. A fábrica faliu em 1970.

Companhia de Fiação e Tecelagem de São Luís

Produzia anualmente 350.000 metros de tecidos com 55 teares e 55 operários. A fábrica foi criada na Rua São Pantaleão em 1894 e faliu em 1960.

Santa Amélia

Situada na Rua das Crioulas, era chamada de Companhia Lanifícios Maranhenses e depois fábrica Santa Amélia. O estabelecimento pertencia ao grupo Cotonifício Cândido Ribeiro. Produzia por ano 440.000 metros com 22 teares e 50 operários. A fábrica faliu em 1969. Atualmente o estabelecimento faz parte da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), onde são formados turismólogos.

Companhia Progresso Maranhense

Localizada na Rua Antônio Rayol, antiga Rua São João, a fábrica foi criada em 1892. Produzia por ano 70.000 metros de tecidos, com 150 teares e 160 operários. 

Companhia Fabril Maranhense

Localizada na rua Senador João Pedro, foi criada em 1893; funcionava com 450 teares e 600 operários, produzia por ano 3 milhões de metros de tecidos. A fábrica faliu em 1971.

Companhia de Fiação e Tecido do Rio Anil

Criada em 1893, no bairro do anil, pertenceu ao grupo Jorge & Santos. Possuía 172 teares e 209 operários, a produção chegava a 1 milhão de metros de tecidos por ano. A fábrica faliu em 1966 e atualmente funciona a escola pública Cintra.

Companhia de Fiação e Tecido do Cânhamo

Foi criada em 1891, situada na rua São Pantaleão, pertencia ao grupo Neves Sousa. Possuía 105 teares e 250 funcionários, produzia por ano 1.500.000 sacos de estopa. A fábrica faliu em 1969, atualmente funciona no prédio o Centro de Produção Artesanal do Maranhão (CEPRAMA).

Companhia Industrial Maranhense

Criada em 1894 na rua dos Prazeres, possuía 22 teares e 50 operários, produzia anualmente 120 toneladas de tecidos.

Cotonière Brasil Ltda

Empresa de origem francesa, foi criada na década de trinta e tinha por objetivo abastecer a empresa LILI, a qual era subsidiária. Foi desativada em 1945.

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