Com 8 anos de experiência atuando na área de economia e finanças, João Carlos começou a atuar na área de economia em 2012, em um escritório da XP investimentos. Logo após, trabalhou no Conselho de Economia do Maranhão (CORECON-MA), além disso, foi auxiliar de pesquisas, pesquisador e coordenador de conjuntura econômica no Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (IMESC). Seus pais são de Santos – SP, mas se conheceram na Angola, e devido os conflitos naquele país, mudaram-se para Niterói – RJ, onde João Carlos veio a nascer. Com 5 anos de idade ele muda-se para São Luís-MA, cidade onde vive até hoje. É formado em ciências econômicas e possui mestrado em Desenvolvimento Socioeconômico, ambas formações pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Jornal O Mará Como economia maranhense evoluiu ao logo dos anos?

João Carlos A atual economia maranhense deriva de estruturas construídas  de meados do século XX, aquelas É nesse período que se constroem as ferrovias São Luís -Teresina (1957) e a Estrada de Ferro  Carajás operada pela Vale S/A (1985); atraem-se empresas como a Suzano Papel e Celulose; Consórcio Alumar e a Bungee que vão metamorfoseando a rotina dos maranhenses, antes baseada em atividades primárias arcaicas e de baixa produtividade para um novo padrão baseado em grandes empresas, alta produtividade e larga exportação de commodities, com essas atividades e a mudança do padrão econômico do Maranhão as primeiras décadas dos anos 2000 proporcionaram um crescimento robusto à medida que a demanda mundial, advinda sobretudo da China, cresceu e a nossa pauta de exportação acompanhou e se beneficiou.

Dessa forma o Maranhão tornou-se grande exportador de commodities minerais (ex. bauxita/alumina calcinada/alumínio, minério de ferro e ouro), agrícolas (ex. soja, milho e sorgo), derivados animais (ex. carne bovina) e de matérias primas (ex. pasta de celulose e algodão). Essa exportação gerou crescimento do Produto Interno Bruto, com enorme concentração econômica na região do complexo portuário (Região Metropolitana da Grande São Luís) o que proporcionou aquecimento concentrado no mercado consumidor, de trabalho, de serviços e da renda em poucas regiões produtoras e nas cidades exportadoras, centradas em São Luís.

Contudo, apesar desse crescimento robusto e da mudança econômica deste período, o Maranhão não transformou suas bases produtivas ao ponto de gerar ganhos de complexidade econômica, isso significa, transformar suas commodities em produtos mais robustos, bem elaborados. Isso também pouco aconteceu com a pauta de serviços, que não são de elevada tecnológica, exceto algumas peculiaridades no sistema logístico, os serviços ainda são muito dependentes de mão de obra ou pouco sofisticados, em termos de softwares é ainda bastante precário, tanto no uso quanto na produção destes. Isso significa que o Maranhão não agrega muito valor nas suas mercadorias e serviços, e, isso, faz com que os salários não cresçam.

Isso se deve à inúmeros fatores, dentre eles podemos ressaltar: o baixo investimento em infraestrutura tecnológica; o enorme gap social presente no Estado – ainda baixo nível de escolaridade, má distribuição da renda, enorme contingente de extremamente pobres; problemas sanitários; instabilidade política;  ausência de planejamento do desenvolvimento socioeconômico de longo prazo; má distribuição dos recursos públicos etc…; Não há uma panaceia que resolva todos esses problemas de uma só vez, mas acredito que alguns deles estão sendo sanados, embora muito lentamente devido as inúmeras dificuldades – sobretudo da escassez de recursos públicos livres para atuar com políticas públicas estruturantes – situação ainda mais periclitante em municipalidades pequenas.

Atualmente vejo que é óbvio a vocação do Maranhão como polo exportador da região Nordeste devido à posição estratégica do Complexo Portuário de São Luís, contudo, é necessários que os produtos que perpassem os solos maranhenses, assim como os produzidos em loco, perpassem por certos adensamentos produtivos, ainda que sejam pequenos de início é preciso, por exemplo, incentivar  a produção de ração ao invés da exportação da Soja de Grãos, a produção do Alumínio ao invés da exportação de Alumina Calcinada e assim por diante. Isso gera mais empregos, ampliar a massa salarial, aumenta o valor da remuneração e induz à um melhor crescimento da atividade econômica local podendo potencializar o poder do mercado interno – o que também é um problema.

O mercado interno maranhense não é dos maiores, mas possui um consumo relativamente robusto em torno da região metropolitana de São Luís, das regiões turísticas e das cidades médias, como Imperatriz. O baixo nível de renda e o contingente de extremamente pobres prejudica o padrão de consumo, mantendo-o baixo. Mas é possível incentivar a produção local para substituir alguns produtos que são adquiridos de outros estados, como laticínios, verduras, frutas e proteínas animais. Isso decorre de uma falta de capacitação e disponibilização de acesso ao mercado para os produtores familiares, que podem auxiliar no fortalecimento da renda nos pequenos municípios.

Nesse contexto a atividade turística e cultural torna-se também de supra relevância para o crescimento da renda. O turismo utiliza da mão de obra local e pode potencializar o mercado consumidor  – através da demanda dos visitantes por produtos locais, gerando mais renda na região e aquecendo o sistema hoteleiro, os serviços essenciais à este nicho e que podem também utilizar da mão de obra local – que em sua maioria não exige alto grau de especialização e capacitação, mas não impede o que seja aprimorado com o aquecimento do mercado local e ações de políticas públicas.

Dessa forma é primo que seja desenvolvido ou mantido os planos de longo prazo para o desenvolvimento para o Maranhão, com atualizações e ajustes pontuais sem alterações drásticas da estratégia de desenvolvimento e sem abandonar o planejamento. O Estado deve ser o grande interlocutor do desenvolvimento e atuar como investidor na infraestrutura física e social, proporcionar a conexão entre os mercados locais e garantir que o setor privado tenha um panorama estável e seguro para investir no Maranhão e que as empresas encontrarão mão de obra disponível e qualificável para o trabalho necessário. Deve-se adotar políticas de combate à extrema pobreza e estratégias de crédito para o adensamento das cadeias produtivas locais, visando o mercado interno e externo. As grandes empresas são ponto chave nessa transformação e as parcerias público privadas fonte de financiamento de serviços e infraestrutura chave.

JM Quais os aspectos econômicos que precisam ser melhorados em são Luís?

JC São Luís é uma cidade que sofreu um grande boom demográfico com o crescimento econômico resultante dos investimentos do século XX, tornando-se na década de 1990, um polo atrativo para migração da zona rural para o urbano que não foi acompanhado de investimentos estruturantes proporcionais para garantir igualdade e qualidade de habitação, saneamento e mobilidade. A expansão populacional resultou em bolhas de desigualdades dispersas dentro da grande São Luís que resultaram em: favelas, saturação do trânsito, saneamento básico irregular, falta de água, desordenarão cultural, aumento setorizado do crime e da violência, expansão dos problemas ambientais e da poluição e, por fim dificuldade em manter e gerir os recursos públicos para manutenção dos direitos constitucionais básicos, da educação, da saúde e da segurança dos seus habitantes.

O planejamento público de São Luís é bastante frágil politicamente e vem sendo bastante vulnerável às mudanças de políticos, dificultando uma estratégia de longo prazo – que quase nunca ocorre e quando ocorre é substituída no governo subsequente. É preciso um plano norteador que perpasse pela gestão orçamentária das Leis Orçamentárias Anuais – LOA e das Diretrizes Orçamentárias – LDO e dos Planos Plurianuais – PPA para um prazo mais extenso e rígido. São Luís precisa de um plano alinhado com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), com investimento em infraestrutura econômica e social, fortalecer a relação intermunicipal com municípios vizinhos do qual São Luís deve liderar às articulações, revisar o plano urbano e de mobilidade para adotar estratégias de cidades inteligentes e sustentáveis, substituindo tecnologias defasadas tanto da administração pública como das estruturas públicas existentes e abraçar os conceitos modernos de governança, pautados no “fazer juntos” comparticipação público-privadas e da população no desenvolvimento estratégico da cidade.

JM Quais as consequências da pandemia na economia de São Luís?

JC O ano de 2020 vem sendo um ano conturbado e desafiador para todos os agentes econômicos – famílias, empresas e para o governo. O impacto do novo coronavírus e das quarentenas/lockdowns no Brasil no Mundo resultaram numa perda significativa de atividade econômica que reduziu não somente a demanda mundial como a oferta de algumas mercadorias e produtos, consequentemente, houveram enormes flutuações nos preços das mercadorias e nas taxas de câmbio globais.

Embora a maioria dos fenômenos tenham sido extremamente danosos, como: fechamento de empresas, aumento do desemprego, maior mortalidade, redução da arrecadação própria e de repasses estaduais, crescimento dos gastos – sobretudo de despesas com saúde e investimento correlatos, aumento dos custos de algumas mercadorias essenciais, redução dos estoques e dificuldades logísticas; alguns fenômenos foram benéficos para a economia, como é o caso das exportações que se beneficiaram pela alta do câmbio para aumentar os lucros das empresas que vendem para o resto do mundo. A crise do novo coronavírus mostrou “benéfica” para o setor de commodities alimentícias, que não sofreram uma redução significativa na demanda, mas tiveram os preços elevados por pressões na oferta e na valorização de moedas estrangeiras.

Contudo, deve-se ressaltar que o crescimento da exportação dessas grandes empresas – em termos de valor exportado, não significa que São Luís não sentirá efeito das mazelas da pandemia. Os efeitos podem até ter sido mitigados, mas o redutor proporcionado por estas empresas – no efeito da pandemia, é muito pequeno, pois os produtos possuem pouco valor agregado, dinamizando muito pouco a economia local, portanto, mesmo que o mercado externo tenha se beneficiado isso não se traduzirá em melhorias econômicas, distribuição da renda e nem atenuação do desemprego interno, que deverão crescer devido a pandemia.

Deve-se ressaltar os riscos de uma segunda onda diante desse panorama que fazem com que novos investimentos – que poderiam auxiliar na recuperação econômica, não sejam realizados devido aos altos riscos e da incerteza dos efeitos e da continuidade da pandemia.

JM Quais as áreas da economia mais sofreram a pandemia?

JC No aspecto positivo, as empresas exportadoras de commodities agrícolas e alimentícias foram beneficiadas pela pandemia devido à alta do câmbio que tornou as vendas para o exterior muito mais rentáveis. Outras empresas exportadoras puderam, inclusive, compensar através do câmbio as perdas geradas na redução da produção e da demanda, conseguindo gerar crescimento dos lucros mesmo em tempos de pandemia.

Nesse sentido quem mais sofreu com a pandemia, foram as pequenas empresas – que não possuem acesso ao mercado externo, empresas que não conseguiram se atualizar ao sistema móvel e/ou de delivery e empresas que ficaram impossibilitadas de atuar durante o lockdown e as quarentenas. Destacam-se entre essas o setor de turismo, hoteleiro, eventos e festas, floriculturas, transporte aéreo e público, pequenos comércios locais, comércios de peças, a indústria e as concessionarias automobilísticas, restaurantes, cinemas e teatros, lojas e shopping centers, dentre muitas outras.

JM Quais seriam os caminhos a serem adotados para uma reabilitação do comércio local em 2021?

JC A reabilitação do comércio local deverá acontecer gradualmente em 2021, linhas de crédito assistenciais para a recuperação do mercado devem ser feitas, mas, o nível de endividamento das famílias e empresas já aumentou bastante, tornando necessário ações que mitiguem no curto prazo o restabelecimento desses mercados, como carências maiores, extensão do tempo de pagamento das parcelas.

As estratégias de desenvolvimento do comércio local devem ser realizadas por setores e intersetores, ou seja, é preciso ver quais atividades comerciais que querem se recupera e como podem ser feitas intervenções de melhorias e como essas atividades podem se auxiliar mutualmente e se articularem.

Um caminho interessante seria garantir assessoria à empresários e comerciantes locais para traçar o processo de recuperação e juntar informações do coletivo para auxiliá-los na interlocução com bancos e outras empresas.

JM Como as eleições dos EUA pode afetar a economia em São Luís?

JC Os Estados Unidos ainda são a economia mais forte do mundo, seja em termos de Produto Interno Bruto, mercado, influência política ou poderio bélico. Todo processo eleitoral no país gera especulações e incertezas ampliando o medo de riscos econômicos e geopolíticos. Cada partido e candidato tem direções políticas próprias e a forma como conduzirão nos primeiros cem dias de governo ditará para o mercado seu posicionamento preciso sobre determinados temas, países e setores econômicos.

A depender das políticas econômicas adotadas nos EUA, poderá haver flutuações drásticas nos preços de mercadorias, nas taxas de câmbio e nas taxas de juros mundiais. O país controla a atual “moeda universal” que serve de parâmetro para o comércio internacional e tem grande capacidade de ditar parte do rumo da economia.

As eleições costumam ser um período de incerteza gerando volatilidade cambial e nas taxas de juros globais. Os efeitos pós-eleição que são os mais perigosos, mas só serão vistos à medida que o vencedor começar a atuar e os efeitos de curto prazo começarem a se propagar.

JM Para você existe um plano ideal para economia de São Luís?

Não acredito que exista plano ideal. Mas que seria ideal ter um plano. O planejamento deve ser estratégico e de longo prazo, deve investigar as peculiaridades da região, perpassando por todos os eixos, definindo prioridades através de possíveis impactos reais na geração de emprego, renda, distribuição da riqueza, atração de investimentos e na sustentabilidade. Mas isso não pode ser um plano rígido e pré-estabelecido, mas passível de adaptações e mudanças a medida que o mercado local se transforma, os impactos estratégicos mudam e as realidades regionais, nacionais e internacionais mudam. Não há plano ideal, pois, o plano deve ser conduzido através de modelos estatísticos robustos para mensurar impactos na economia, deve possuir banco de dados atualizados e, portanto, deve ser flexível às transformações e constantemente revisado.

JM O que se pode esperar do próximo prefeito de São Luís, e quais os desafios econômicos este irá enfrentar na prefeitura?

JC Há muito para se fazer em São Luís, os gargalos são diversos e estão por todas as áreas, mas há pouca margem para ação pública municipal. O orçamento municipal para investimento é pequeno, a crise da pandemia enxugou as receitas e ampliou as despesas em todas as esferas da gestão pública. O candidato que assumir enfrentará um grande desafio para manter a máquina pública e realizar investimentos, deverá reestabelecer as contas públicas municipais, buscar receitas em dívidas não pagas e em isenções tributárias e lutar para conseguir adquirir financiamentos com instituições financeiras – o que será difícil com a atual capacidade de pagamento – CAPAG.

Espero que os candidatos consigam ser coerentes em suas propostas. Não dá para atacar as frontes necessários em uma gestão só e com as atuais condições das contas públicas municipais. O candidato eleito deverá manter a máquina funcionando, reduzir ou zerar a depreciação estrutural e atacar poucos gargalos estruturais, caso contrário, serão medidas paliativas e não permanentes, gargalo será tapado com uma peneira frágil.

JM O que pode ser melhorado em atividades econômicas como a pesca, artesanato, turismo, hoteleira em São Luís?

JC A pesca no Estado do Maranhão é pouco avançada tecnologicamente, mal organizada e pessimamente fiscalizada. Muitos pescadores possuem enormes dívidas com donos das embarcações ou pagam prestações altíssimas para usar estes barcos, que consomem a maior parte da renda obtida em dias de pesca e deixa um mínimo ao capitão e seus tripulantes. Isso exige fiscalização e apoio público para melhor financiar e auxiliar a estruturação das embarcações. Além disso, há pouca organização na comercialização com muita atividade ilegal na venda de frutos do mar que deve ser enfrentado.

O Artesanato e o setor hoteleiro estão intimamente interligados ao turismo. Os setores dependem dos turistas que por sua vez visitam a cidade através dos atrativos que ela e a região oferece. O maior problema para o setor de turismo é a sazonalidade que reduz a rentabilidade em períodos de baixa temporada e dificulta a manutenção. Para que o setor se fortalece é preciso a construção de uma agenda cultural forte, que mantenha atrações o ano inteiro, rotas turísticas alternativas e inclusivas, medidas de apoio à realização de eventos culturais, acadêmicos, profissionais em baixa temporada, para atrair outros públicos e manter ou melhorar o padrão de consumo durante as baixas temporadas.

O desempenho do artesanato, além do fluxo turístico, vai depender da conexão das rotas, da divulgação e do estabelecimento de mercados locais, incentivos aos artesões e da sua presença em eventos culturais e turísticos. O fortalecimento cultural é crucial para divulgação do turismo e do artesanato local, no qual, novas estratégias devem ser adotadas além daquelas tradicionais de eventos e produtos físicos, o mercado digital é forte, cheio de patentes para serem registradas e possibilita um mercado em escala, impossível para o artesanato local e físico.

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