Sete anos após a retirada das famílias da terra indígena Awá-guajá, o número de agricultores que já faleceram em decorrência do processo de desocupação, chega a vinte. Os dados são do Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) de Governador Newton Bello, que acompanha as famílias desde 2014. De acordo com o órgão, as mortes em sua maioria, foram ocasionadas por transtornos psicológicos.

Operação Awá-guajá

Segundo a APROCARU (Associação dos Produtores Rurais de São João Do Carú), 1244 famílias viviam na terra Awá-guajá. As famílias foram retiradas após uma decisão do Juiz José Carlos do Vale Madeira, que determinou a saída voluntária ou a retirada a força e, sem indenização das famílias que habitavam a área. No dia 06 de janeiro de 2014, a Força Nacional e a FUNAI chegaram a São João do Carú para cumprir a ordem.

Os caminhões cedidos para o transporte dos bens materiais de algumas famílias, se mostraram inadequados a um traslado seguro, o que resultou na perda de móveis, e na humilhação das pessoas que passavam ensopadas e tremendo de frio nos diversos povoados, ao longo do trajeto.

Caminhão usado nos transportes dos pertences de agricultores atolado na estrada do pov. Caju – Foto: APROCARU

A outra parcela das famílias teve que pagar o transporte. Visto que, a FUNAI, negou meios de transporte sob o pretexto de que, as residências destes eram inacessíveis no inverno para caminhões. Mesmo assim, exigiu que essas famílias saíssem com seus pertences no período das chuvas, o que lhes causou mais embaraço.

Meio de transporte utilizado pelos agricultores na retirada de seus pertences.

A retirada das famílias aconteceu sob a promessa do INCRA doar cestas básica, aluguel social ou realocá-los em casas já construídas. O órgão garantiu ainda que, a vida dos agricultores ficaria melhor do que quando residiam na área indígena.

Não as realocou em casa, nem pagou o aluguel social. O órgão chegou nem mesmo a dar assistência social necessária ou os encaminhou ás instituições sociais dos municípios.

Só meses após a retirada, que o INCRA se manifestou e apresentou as famílias dois terrenos, sem nenhuma infraestrutura, e no município de Parnarama, lugar distante onde estavam seus parentes, amigos e vizinhos, com os quais contariam em horas tão difíceis. Para algumas famílias deram duas a três cestas básicas e segundo elas no período eleitoral.

Somado a tudo isso, e outros fatores, fez com que a maioria das famílias rejeitassem tais terrenos, e os que foram para lá voltaram.

No ano de 2015, o CRAS de Governador Newton Bello elaborou o primeiro relatório, onde definiu como “deplorável” a situação das famílias. Ainda de acordo como o documento: “famílias com idosos, crianças e gestantes foram expostas ao risco, quando na boleia ou mesmo nas carrocerias dos caminhões se viam na iminência de perderem a vida por estradas de meia banda, ladeiras íngremes e chão argiloso. Idosos hipertensos, sob a intensa carga emocional que uma perda do lugar onde criaram seus filhos pode ocasionar, foram simplesmente deixados a seguirem sozinhos por um ou mais dias através da estrada, sem monitoramento da pressão arterial”, diz o relatório.

Ladeira com muita lama e ponte coberta de água, impossibilitando o remoção de pertences dos pequenos agricultores do Pov. Caju – Foto: APROCARU

Na época, o órgão alertou o poder público sobre a fragilidade econômica das famílias e os possíveis impactos psicossomáticos. “O receio é de que o peso de todas estas dificuldades, somado à carga emocional decorrente da perda dos bens, dispersão dos amigos e familiares e ao abandono do lugar em que costumaram a viver resulte em outras tragédias”, destacou.

Sem suporte por parte do poder público, as famílias se espalharam pelos municípios de Governador Newton Bello, Zé Doca, Bom Jardim, São João do Carú e Paragominas – PA e mais tarde em Parnarama nos terrenos do INCRA.

Consequências da operação Awá-guajá

Escola do Povoado Caju sendo destruída- Foto: APROCARU

Familiares cujos integrantes nunca haviam se separados se dispersaram por diversos municípios do Maranhão e de outros estados, devido a necessidade de buscarem o sustento. Dessa forma, foram submetidos a um difícil processo de adaptação cultural. Muitos se endividaram devido aos investimentos feitos na terra terem sidos perdidos.

Como consequência, transtornos de estresse pós-traumático se tornaram recorrentes entre membros das famílias. Alucinações, ansiedade, depressão, flashbacks, insônia, pesadelos, e pensamentos suicidas se tornaram comum.

O processo de retirada foi feito sem nenhum estudo prévio dos impactos sociais, psicológicos e econômicos, assim como também, nenhum plano eficaz de acolhimento. Os membros de famílias impossibilitados de trabalhar devido doenças, enquanto provedores do sustento da família, tiveram alimentação comprometida por causa do aluguel da casa.

Em 2018, o CRAS já havia constatado que dois chefes de família já haviam enlouquecidos, e outros 15 haviam falecidos, sendo três deste de AVC. As mortes foram resultado de transtornos mentais, problemas econômicos e sociais, surgidos e ou agravados com o processo de desocupação da terra indígena Awá-guajá.

Um dos casos de AVC, é de um senhor (não tivemos autorização para revelar o nome) que morava do povoado Vila Veras (Município de São João do Carú). Este senhor havia enviado sua companheira, para fazer uma histerectomia em Zé Doca e ficou trabalhando para oferecer suporte financeiro.

Quando a Força Nacional chegou e determinou a saída dele da terra, onde residia desde 1992, este senhor ficou transtornado com a perda da terra e a saúde da mulher, e sofreu um derrame. Era período chuvoso e os vizinhos tiveram que tirá-lo na rede para São João do Carú, onde foi transferido numa voadeira para Santa Inês. No caminho pegou uma chuva. Ao chegar no Hospital Tomás Martins, faleceu. Com 23 dias de operada sua companheira não pode acompanhar o velório.

Criação da terra indígena

Propriedade dentro Terra Awá-guajá, derrubada pela Força Nacional – Foto: APROCARU

A terra indígena abrange quatro municípios do Maranhão: São João do Carú, Governador Newton Bello, Zé Doca e Centro Novo do Maranhão. O processo de criação de tal terra teve início em 1985, a pedido da Companhia Vale do Rio Doce.

Em 1992, a Justiça determinou a demarcação de 118.000 hectares de terra para os Awá-guajá, mas a demarcação física só se deu de fato em 2002, a homologação em 2005 e a retirada dos posseiros em 2014.

A terra indígena Awá-guajá foi criada para servir de corredor ecológico, ligando a terra Indígena Alto Turi com a Terra Indígena Carú, ambas as terras já demarcadas para os índios Awá-guajá. O argumento usado foi que o número de indígenas homens na terra indígena Carú, era bem maior do que de mulheres, e que, portanto, deviam unir as duas terras para que os indígenas pudessem se encontrar. Porém, a terra Indígena Alto Turi sofre com mesmo problema, uma vez que lá também, o número de homens é superior ao de mulheres.

Os agricultores criticam que antes mesmo da criação da terra indígena já habitavam a área. O agricultor, Sr. Valdir conta que colocou a primeira roça (onde hoje é o povoado Cabeça Fria) no ano de 1984. Ele afirmou ainda que, quando chegou, que já existiam outros moradores dentro da terra Awá-guajá. “O posto Juriti, a única aldeia localizada na suposta Terra Indígena Awá-guajá, foi criada bem posteriormente a nossa chegada. É um erro sermos considerados ocupantes de má-fé”.

Igreja Católica do povoado Cabeça Fria em ruínas, 2019 – Foto: Vando Maciel

Atualmente existe na terra indígena Awá-guajá apenas uma aldeia indígena. Chamada de Posto Indígena Juriti, foi criada em 1989 e recebeu a incorporação de novos Awás até 1998. Atualmente conta com 38 indivíduos. A aldeia indígena ficava localizada dentro da terra indígena Carú, mais precisamente na cabeceira do Igarapé Juriti, (por isso leva esse nome). Mais tarde foram transferidos propositalmente para a terra Awá-guajá.

  1. Osvado Pereira Filho

    Uma matéria bem pesquisada, sem dúvida, e que dará voz àqueles que tiveram seus depoimentos e aflições ofuscadas intencionalmente por ONGs e parte da mídia comprada !

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