Renato, Muari Vieira citado na canção como “o filhinho do Eduardo” e Fernando “o  Eduardo” – Foto: Dino – Página Aborto Elétrico

A canção Eduardo e Mônica foi gravada pela primeira vez em 1982, no álbum “O Trovador Solitário”. Na época, Renato se apresentava sozinho no violão. Em 1986, a música foi regravada e lançada no álbum “Dois”, porém desta vez, com um final um pouco diferente.

Renato se inspirou em várias pessoas que ele gostava e em casais de amigos, para criar os personagens Eduardo e Mônica. Entre os “Eduardos” estão André Pretorius, Philippe Seabra e Dado Villa-lobos. O próprio Renato, chegou a dizer que ele mesmo era o Eduardo, só que menos bobo. Entretanto, as maiores inspirações para a canção foi sua grande amiga Leonice de Araújo Coimbra ou simplesmente Leo Coimbra, ela é a Mônica e o seu marido Fernando Coimbra, é o Eduardo.

Em uma entrevista cedida à página Aborto Elétrico Æ em maio de 2017, Leo Coimbra falou sobre a música. “Renatinho me apresentou letra e música via telefone. Disse na época que dedicou a nós, Fernando e a mim e a um outro casal de amigos. Como não me identificava, só a tinta no cabelo, nunca levei muito a sério. Em 94, tínhamos mudado para Quito, Equador, e num belo dia Renatinho liga avisando da entrevista à revista Marie Claire, onde diz que sou a Mônica. Não fazia a mais remota ideia do que significava ser a “Mônica” da música “Eduardo e Mônica”. Levei muito tempo para ser “grata” à referência. Muito mesmo. Me incomodava a curiosidade das pessoas de saber se eu era a personagem criada, se correspondia aos anseios delas, etc. E claro, não correspondia. Não era eu. Assim como o Eduardo não era o Renato e nem o meu marido, o Fernando”, comentou.

Leo Coimbra já havia comentado que não se identificava com a Mônica da música em uma entrevista à revista Flashback, publicada em outubro de 2004. “Da canção, só me encaixo quando ele diz que Mônica adorava os filmes de Godard e tinha tinta no cabelo – como sou artista plástica, às vezes tinha mesmo tinta no cabelo. Apesar de ter tido avó alemã, não falo nada dessa língua. E nunca fiz medicina. Temos três filhos. Na época da música, os meninos eram pequenos, e nenhum deles ficou de recuperação. Talvez o que ele quisesse mostrar é que duas pessoas podem se encontrar, se casar e ser felizes juntas, mesmo que venham de realidades diferentes”, destacou.

Leo Coimbra, 2004 – Foto: Revista Flashback

A Leo possuía uma relação bem familiar com o artista, inclusive foi ela uma das primeiras a saber, que ele havia contraído o vírus da Aids. Na época já era mãe de 2 filhos do primeiro casamento e estava namorando alguém mais novo, no caso o Fernando. “Acho importante te dizer que, apesar de ser dois anos mais velha que o Renato, eu já tinha dois filhos do meu primeiro casamento, trabalhava fora, tinha responsabilidades que não deixavam muito espaço para a curtição fora de casa”, afirmou Leo em entrevista à página Aborto Elétrico Æ.

Da esquerda para direita: Muari, Leo Coimbra e Fernando, no Parque do Ibirapuera São Paulo – Foto: Rosângela Barboza/ Página Aborto Elétrico

Analisando alguns trechos da canção

Eduardo e Mônica – Ilustração

O Eduardo e a Mônica são diferentes como o Sol e a Lua. Possuem gostos, idades e comportamentos diferentes. São os opostos que se atraem. Essa falta de padrão, demonstra o quanto é difícil definir o que é o amor. Na primeira estrofe Renato fala dessa complexidade.

Quem um dia irá dizer que não existe razão

Nas coisas feitas pelo coração

E quem me irá dizer que não existe razão

A razão do coração parece estar oculta para os que não sentem amor, e visíveis apenas para aqueles que sabem o verdadeiro sentido de amar.

A razão é a “cabeça”, o cérebro, a mente. Já o coração é o “Corpo”, é a fontes de desejos. Quando amamos, parecemos nos tornar seres irracionais, não analisamos as coisas com a cabeça e sim, com o coração, a verdade é que as razões do coração nem sempre são racionais.

O filósofo Blaise Pascal dizia que “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. A verdade é que o coração tem suas próprias razões. São elas as que mais nos excitam em seu calor mágico, estimulante e eufórico, enquanto a razão (da cabeça) é fria, rígida, séria e controlada, e portanto, não consegue compreendê-la.

“Eduardo e Mônica trocaram telefone

Depois telefonaram e decidiram se encontrar

O Eduardo sugeriu uma lanchonete

Mas a Mônica queria ver o filme do Godard”

O Godard na canção é Jean-Luc Godard, diretor franco-suíco, roteirista e crítico de cinema. Nasceu em Paris, França no dia 3 de dezembro e se tornou um grande revolucionário da sétima arte, inovando em angulações e temáticas.

“Se encontraram, então, no parque da cidade

A Mônica de moto e o Eduardo de camelo

O Eduardo achou estranho e melhor não comentar

Mas a menina tinha tinta no cabelo”

Essa estrofe nos relata outro encontro de Eduardo e Mônica, só que dessa vez no parque da cidade. Essa é também uma das estrofes em que a Leo Coimbra se identifica, pois segundo ela, às vezes tinha tinta no cabelo devido sua profissão de artista plástica.

O termo “camelo” é uma gíria para bicicleta em Brasília, uma vez que a canção é voltada para essa cidade.

“Eduardo e Mônica eram nada parecidos

Ela era de Leão e ele tinha dezesseis

Ela fazia Medicina e falava alemão

E ele ainda nas aulinhas de inglês”

Nesta estrofe, Renato reforça a diferença de idade entre Eduardo e Mônica. Enquanto ela se formava em medicina, o Eduardo era apenas um adolescente nas “aulinhas de inglês” com seus dezesseis anos de idade.

Podemos observar também que a Mônica era mais velha, por causa do seu comportamento, do seu modo de ser e porque a estrofe anterior fala que ela foi de moto para o parque da cidade. O que indica que Mônica provavelmente era maior de idade.

“Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus

Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud

E o Eduardo gostava de novela

E jogava futebol de botão com seu avô”

A Mônica era uma pessoa inteligente, moderna, culta e espiritualizada que apreciava a arte, a cultura, a música, a literatura, o cinema etc.

O Bandeira da canção é o poeta Manuel Bandeira, um dos principais nomes do movimento modernista no Brasil. O escritor nasceu no dia 19 de abril de 1886, no Recife, Pernambuco. Bandeira inovou ao escrever versos simples, de fácil compreensão e ainda assim, muito belos.

Bauhaus é uma banda inglesa de pós-punk formada em Northampton, no ano de 1978. O grupo consistia de Peter Murphy (vocal), Daniel Ash (guitarra), Kevin Haskins (bateria) e David J (baixo). Eles exploram um estilo intenso, sombrio e assustador que se tornou conhecido como rock gótico. A Bauhaus continua sendo um dos grupos mais populares de sua época.

Vincent Willem Van Gogh foi um pintor holandês considerado uma das figuras mais famosas e influentes da história da arte ocidental. Van Gogh não obteve reconhecimento no meio artístico enquanto estava vivo. O fracasso fez com que ele atirasse no próprio peito, morrendo dois dias depois na cidade de Auvers-sur-Oise, França.

Os Mutantes é uma banda de rock brasileira. Na época em que os primeiros álbuns psicodélicos ganhavam destaque no cenário musical, Rita Lee se uniu a Arnaldo Baptista e a Sérgio Dias e assim surgiu uma das mais importantes e malucas bandas do rock brasileiro.

Caetano Veloso é outro grande nome da música popular brasileira, sendo, inclusive, um dos maiores representante movimento Tropicália.

Por fim, o último grande célebre que aparece na música é o brilhante poeta francês Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, que mais tarde influenciou grandes símbolos da contracultura, como Bob Dylan e Jim Morrison. Rimbaud morreu prematuramente, aos 37 anos, de câncer.

“Eduardo e Mônica voltaram pra Brasília

E a nossa amizade dá saudade no verão

Só que nessas férias, não vão viajar

Porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação.”

Não deu certo para o casal viajar porque o filhinho do Eduardo estava de recuperação. O Renato falou filhinho do Eduardo provavelmente, porque os dois primeiros filhos de Leo Coimbra eram do seu primeiro casamento, eles não eram filhos biológicos do Fernando. Entretanto Leo Coimbra afirmou, que não se indentifica com a estrofe, pois segundo ela, na época que a música foi escrita, nenhum dos filhos ficou de recuperação.

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