Com menos pessoas circulando pela cidade, ficou mais difícil conseguir ajuda. Para quem vive as ruas falta alimentos, emprego e produtos de higiene.

A pandemia tornou mais evidente a vulnerabilidade dos moradores de rua. Com menos pessoas circulando nas ruas, ficou mais difícil conseguir doações de alimentos, roupas e produtos de higiene. Além disso, a crise sanitária contribuiu para o fechamento de empresas e, portanto, conseguir um emprego ficou mais difícil.

Morador de rua no centro de São luís – Foto: Hiago Matos

Nas ruas faltam alimentos, emprego, habitação e produtos de higiene. Além da chuva, do frio e a violência, os moradores têm que enfrentar o vírus. Segundo Jhonata, 30 anos, artesão mineiro que foi parar na rua por causa da arte e para poder viajar pelo Brasil, “É difícil porque o governo quer isolar todo mundo, mas as pessoas não conseguem se manter. Vai ficar dentro de casa esperando a morte chegar? O isolamento é a coisa certa, desde que a pessoa possa se manter isolada. Quem tem dinheiro consegue, mas quem não quem como faz? ”, indagou Jhonata.

Charge – Vando Maciel

Além da necessidade de itens de prevenção, é preciso habitação. Sem uma casa para morar, é quase impossível fazer isolamento social. “Essa pandemia não teve nenhum impacto na minha vida, as pessoas falam para ficar em casa, mas como vou ficar em casa se eu moro na rua? ”, interrogou Josias, morador que foi parar na rua após conflitos familiares.

A pandemia contribuiu para o aprofundamento das desigualdades, aumento da pobreza e a volta da fome. A crise econômica elevou o índice de desemprego e causou o empobrecimento da população brasileira. O auxílio emergencial que visa diminuir o impacto na economia, não chegou na mão de todos. Há famílias que estão pela primeira vez em situação de rua.

“Não fui aceito e passei essa pandemia todinha e não recebi nada. Nunca recebi um centavo! Eles alegaram que meu CPF não foi aceito. Aí fica difícil, pois o cara não tem como correr atrás. É aquele negócio, a corda só quebra do lado mais fraco e assim eu vou levando a vida”, disse José Carlos, 50 anos, vulgo Sombra, piauiense que por causa das drogas, vive nas ruas há 26 anos.

A diminuição na circulação de pessoas nas ruas de São Luís, dificulta para conseguir ajuda. José Carlos, o Sombra, lembra que antes da pandemia trabalhava como flanelinha. A falta de eventos, afetou fortemente o trabalho dele. “O movimento caiu e acabou diminuindo o fluxo de pessoas que vinham aqui para o Reviver. As boates todas fechadas, bares têm horários e limites de gente e até mesmo por segurança da gente é melhor mesmo manter distância. Em dias normais era show o movimento, por noite eu fazia 80 reais só vigiando os carros das boates”, declarou.

Apesar da pandemia, ONGs ajudam os moradores de rua. Distribuem itens de prevenção contra a covid-19, como máscaras e álcool em gel. Se proteger do vírus é uma batalha diária, nas ruas é mais difícil fazer isolamento ou distanciamento social. “Ninguém tem na cara escrito ‘eu ‘tenho coronavírus’ ou ‘eu já tive coronavírus’. Temos que manter o padrão, ficar com máscara e na distância correta”, desabafou Sombra.

Violência aos moradores de rua

Moradores de rua dormem no Centro Histórico de São Luís – Foto: Hiago Matos

Para quem vive nas ruas, às vezes falta comida, água e dinheiro para se manter. São vítimas de preconceito, de olhares que julgam, da negligência do Estado e da ignorância da sociedade. São pessoas sem voz e que estão à margem da sociedade.

Soraia, 52 anos, é ludovicense, mora nas ruas de São Luís há 36 anos. Hoje ela tem o próprio barraco e vive do artesanato que produz. Ela contou como a pandemia afetou a vida dela e as dificuldades que passa nas ruas. “A pandemia veio mostrar para nós que temos que ter fé, acreditar na palavra. Depois dessa vem mais outra, e mais outra, a pessoa tem que ter fé em Deus”, afirmou.

Morar na rua é um desafio diário. É viver com a incerteza se terá comida no outro dia ou se vai estar vivo depois de passar a noite dormindo em um lugar onde tudo pode acontecer, tendo que conviver com os riscos que a rua traz. “Viver na rua é um risco. Você corre risco de morrer, de estar dormindo e alguém chegar, dar uma pedrada, uma facada, te jogar água quente. Tudo isso você corre risco, por mais que você tenha uma barraca de campo, você corre risco de alguém chegar e tocar fogo. Não é fácil. Eu já passei por tudo isso, e tenho queimaduras. Eu tive uma discussão com uns moradores, não os que trabalham com nós, os moradores mesmo. Na madrugada estava dormindo quando chegaram e me tacaram álcool e jogaram fogo. Era para eu passar seis meses no hospital, mas aí a força de viver foi mais forte, só passei só três meses”, disse.

Conseguir comida, água, higienização adequada, se proteger da chuva e do frio, são dilemas diários. Eles procuram achar uma forma de todo dia se manterem vivos. Na rua você tem que se virar como pode. Fazer do pouco que tem, o necessário para sobreviver.

Desafios dos Venezuelanos nas ruas de São Luís

Venezuelano Dormar – Foto: Felipe Matos

Além das dificuldades para se adaptar a um novo idioma, a uma nova cultura, os refugiados venezuelanos buscam lidar com a pandemia da Covid-19 no Brasil. O vírus provocou uma crise na saúde e na economia. Produtos alimentícios e itens de prevenção ao coronavírus se tornaram mais caros. Além disso, a diminuição de pessoas dificulta para obter ajuda nas ruas.

Domar, indígena venezuelano da etnia Warao, morava na cidade de Tucupita, capital do estado de Delta Amacuro. Contou que com a crise econômica na Venezuela resolveu imigrar para o Brasil, onde está há dois anos. Entrou no país pelo Estado de Roraima, passou pela cidade de Manaus – AM, Santarém-PA, Açailândia-MA, e por fim, chegou em São Luís. “Vim de ônibus, paguei o transporte com o dinheiro que consegui pedindo nos sinais, pedindo na rua todo dia”, declarou.

Domar afirmou que sente saudades dos pais, tias e avós, porém não pretende retornar à Venezuela. “Prefiro ficar aqui que é mais seguro do que lá. Fui embora da Venezuela por conta das condições de vida que são precárias e aqui no Brasil as condições são melhores do que lá” disse.
Em agosto de 2020 foi implantado em São Luís o Centro de Referência para Atendimento de Imigrantes e Refugiados. O Centro faz parte da Secretaria Municipal da Criança e Assistência Social (SEMCAS), e tem como objetivo ajudar pessoas de diferentes países que chegam à capital

Segundo Cláudia Nunes, coordenadora do Centro de Refugiados, há mais de 160 usuários cadastrados. Estes não estão em situação de rua, e recebem todo o apoio e ajuda que precisam para se estabelecer melhor na cidade. “Somos um Centro especializado responsável pelo acolhimento, sendo uma porta desses usuários para o sistema de assistência básica. Temos uma equipe formada por diversos profissionais que buscam atender as necessidades destes imigrantes da melhor forma. Eles estão em constante movimento, não buscando apenas um lugar para morar, mas procurando recursos para se manter, e também mandar dinheiro para seus parentes na Venezuela”, declarou a coordenadora.

Solidariedade

Membros da Anjos das Ruas conversam com morador de rua – Foto: Divulgação

Atualmente, São Luís conta com ONGs que trabalham com moradores de ruas. Entidades que realizam ações solidárias em diversas regiões da Grande Ilha. Doam alimentos, roupas, calçados, produtos de higiene e parte do tempo para ouvir histórias dos moradores de ruas, como é o caso da ONG SLZ Invisível e a Anjos das Ruas.

ONG SLZ Invisível

A SLZ Invisível surgiu união de três amigos: Francisco Fabio Serafim, Katerine Rodrigues e Brenno Oyama. A ONG além de realizar diversas campanhas e projetos sociais, busca a humanização e conscientização da sociedade através de histórias de pessoas em situação de rua da cidade de São Luís, e toda Ilha Upaon-Açu.

Escrevem e divulgam histórias de pessoas negligenciadas e que, se autodenominam invisíveis aos olhos da sociedade. “A primeira história do São Luís invisível foi postada em janeiro de 2019 e estamos desde essa época conhecendo as histórias, conversando com as pessoas. Toda história, causa impacto nos voluntários de alguma forma”, afirmou Katerine Rodrigues.

A ONG realiza diversos projetos sociais, como o Carnaval Invisível, que distribui cestas básicas, o Natal Invisível que leva ceia e presentes de Natal para pessoas em situação de rua e o Outubro Invisível, realizado no Dia das Crianças.

Durante a pandemia, visando a prevenção contra a vírus, foram adotados cuidados adicionais. “Tivemos que tomar um cuidado maior. Mantemos o distanciamento social, além disso evitamos fazer algumas ações, porque poderíamos contaminar essas pessoas que estão mais expostas e, portanto, mais vulneráveis ao vírus. Adicionamos nas doações coisas, como máscaras e Álcool gel”, declarou Katerine Rodrigues. Ainda segundo ela, os moradores estão sempre estiveram expostos ao vírus, “Não existe resguardo e nem nada, é como se a pandemia não existisse para população em situação de rua”, complementou.

Anjos das Ruas

A ONG Anjos das Ruas através de projetos, realiza ações sociais destinadas à creches, orfanatos, hospitais, asilos e moradores de rua. A entidade surgiu em 2015, criada por Bruno Mendes e os amigos. “Lembro que na época vi uma publicação de um orfanato, e rapidamente encaixei as ideias. E então, corajosamente, esses 7 Anjos foram até esse orfanato e fizeram a ação mais bonita do mundo. E a partir daquele momento eu vi o caminho certo, o caminho que deveríamos seguir. E estamos aqui até hoje” comentou Bruno Mendes.

O grupo realiza diversos projetos e atende em média 100 pessoas por ação. Aos moradores de ruas, doam alimentos e roupas. “Para os moradores de rua, nós temos como principal atividade a entrega de alimentos, como suco, pão, sopa e água mineral. Em algumas épocas do ano, fazemos também entregas de roupas e cobertores para esses moradores”, disse Bruno Mendes.

Em razão do cenário pandêmico, novas medidas foram adotadas para se adaptar ao contexto atual. De acordo com Bruno Mendes, todas as atividades realizadas pela ONG destinada aos moradores de ruas, seguiu todos os protocolos de prevenção à covid-19, como a higienização das mãos dos moradores antes das refeições e o distanciamento social.

As ações da SLZ Invisível, assim como da Anjos das Ruas, se concentram no Centro de São Luís, onde geralmente há maior concentração de pessoas em situação de rua. São realizadas nas proximidades do Mercado Central e o Complexo Deodoro, locais que apresentam maior presença de moradores de rua.

Entre os principais desafios enfrentados pelas entidades, estão questões financeiras. Katerine Rodrigues, contou que a alta nos preços dos alimentos e bebidas, tem dificultado a SLZ Invisível realizar grandes ações. “Tudo está muito caro, tudo cada vez mais inacessível e realização para muita gente é complicado, então realmente precisamos de doações para poder realizar as ações”, declarou.

A Anjos da Ruas sofre com o mesmo problema. Segundo Bruno Mendes, as ações da ONG são custeadas por doações dos coordenadores e membros do grupo. Ele contou que possui muitas ideias e projetos, porém muitos são barrados por questões financeiras. “Eu tenho muitas ideias para realizar, muitos projetos para nossa cidade, até mesmo para os interiores do estado, mas sei também que tudo tem um custo e não posso deixar tudo nas costas dos membros do grupo. Eles já nos ajudam muito, e infelizmente não posso fazer isso” enfatizou.

Dificuldades das ONGs

Atualmente as ONGS em São Luís têm encontrado dificuldades na compra de alimentos e bebidas para as ações, depois do aumento da inflação na Capital. Das 16 regiões pesquisadas pelo IBGE, São Luís e Fortaleza registraram a segunda maior alta, ambas capitais com uma elevação de 1,10% em maio.

Alimentação e bebidas é o grupo com maior peso na inflação de São Luís, com alta de 1,34%. A variação do grupo acumulada nos últimos 12 meses foi de 16,94%, acima do IPCA em geral, que para o mesmo período de tempo foi de 9,64%.

Infográfico do IPCA de São Luís em maio – Dados IBGE

Doses de Esperança

Pessoas em situação de rua de São Luís, já receberam a primeira dose da vacina contra a Covid-19. Toda população cadastrada nos Centros de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro Pop) da capital receberam o imunizante. Ao todo, foram aplicadas 100 doses da vacina da AstraZeneca e a segunda dose ficou para o dia 12 de agosto.

A ação é uma realização da Secretaria Municipal da Saúde (SEMUS) em parceria com a Secretaria Municipal da Criança e Assistência Social (SEMCAS). A vacinação se estenderá, às pessoas em situação de rua que não procuram os serviços ofertados dos Centros POP.

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *